O encontro de culturas e as dificuldades de aceitação do princípio da unidade do género humano
As descobertas marítimas dos séculos XV e XVI deram um diferente significado às relações entre os povos e à concessão de Humanidade.
Segundo o providencialismo, Deus criou Adão, o homem perfeito, dele fazendo descer toda a Humanidade.
Para o pensamento cristão, todos os seres eram humanos, merecedores de receberem a
palavra de Deus e o sacramento do baptismo. Imagina-se a curiosidade com que os navegadores europeus enfrentaram os novos povos.
Puderam constatar que a existência de “monstros humanos” era uma fantasia.
A estupefação deu lugar a relatos antropológicos pormenorizados sobre os Negros, os Asiáticos, os Ameríndios. Cristóvão Colombo, tranquilizou os Reis Católicos, dizendo-lhes que os Índios eram “muito bem constituídos, com corpos muito perfeitos e excelentes caras”. Pêro Caminha descreveu os indígenas brasileiros como “pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos”. Nas regiões da Serra Leoa e da Guiné, mereceram reparo a nudez, a poligamia, a antropofagia, feitiçaria, na Índia sistema de castas. Na China pequenos olhos e, numa época em que comer com as mãos era ainda regra na Europa. Do encontro de povos depressa se passou as confronto de culturas. Olhares desconfiados e hostis com que o Outro via o Europeu.
Quanto ao Europeu, revelou-se, preconceituoso e portador de racismo. Acreditava na
superioridade dos brancos e da religião cristã. Os Islâmicos foram alvo de um repúdio total. Já os hindus e o budistas, mereceram alguma benevolência.
Num tempo em que se pensava que todos os homens descendiam de Adão, o Europeu
começou a duvidar da humanidade e Negros e Ameríndios. Encontrou-se a justificação para a escravatura.
A escravização. Os antecedentes da defesa dos direitos humanos
A escravização conheceu um impulso com as descobertas marítimas e a construção de
impérios coloniais. O recurso à escravatura foi considerado o método mais eficaz para a
obtenção de grandes quantidades de mão de obra.
Empregues nos trabalhos agrícolas, na pesca, em serviços domésticos ou em atividades de vida urbana, não havia cidade europeia ou família de médias posses que dispensasse os escravos. Coube a Portugal e depois à Espanha um importante papel no tráfico de escravos.
Em 1445, Portugueses fundaram a feitoria de Arguim, teve início o tráfico negreiro organizado, África viu-se amputada de cerca de 15 a 20 milhões de seres humanos. O tráfico negreiro é uma história de violência e de desrespeito pela condição humana.
Nos mercados, a condição dos negros era chocante. Não eram vulgares. Como mercadores, os escravos eram loteados, vendidos a um dono que no seu corpo, marcava a posse com um ferro em brasa.
Não se deveram, aos cruéis sofrimentos dos escravos negros as primeiras
manifestações de defesa dos direitos Humanos. Foi na América espanhola, a
propósito da escravização dos Índios. Senhores de extensas terras doadas pela coroa,
e obrigados a evangelizarem e a proteger os indígenas, a quem pagariam um salário.
Depressa esqueceram os seus deveres, argumentando com a “natural
inferioridade dos índios”, a quem apelidavam de “bestas estúpidas”, impuseram-lhes
pesados trabalhos forçados. Os trabalhos forçados contribuíram para a brutal queda
demográfica da população ameríndia.
Felizmente, vários clérigos foram sensíveis ao sofrimento dos índios, lançando do
púlpito das suas igrejas um violento ataque aos colonos. Destacou-se o frade
Bartolomeu de Las Casas.
Portugal teve, em terras brasileiras, o seu defensor dos direitos dos Índios. Foi o Padre
António Vieira, cujos sermões são considerados obras-primas da oratória cristã.
O esforço de enraizamento da presença branca: missionação e miscigenação. O encontro de povos, é uma história de práticas ambíguas. Ora se conquistava com
brutalidade ou se escravizava, se salvavam almas, se missionava povos.
A religião constituiu, uma das forças impulsionadoras das expansões portuguesa e
espanhola. Não admira, por isso, o apoio e a bênção calorosa da igreja as projectos
expansionistas de Portugal e da Espanha. Ao monarcas ibéricos ficaram senhores do
chamado padroado, que lhes conferia privilégios e deveres nos novos mundos
descobertos. Legislavam, nomeavam bispos, abades e toda a hierarquia religiosa,
fundavam igrejas e capelas eclesiásticas, usufruíam do chamado poder espiritual.
No império Português do oriente, Portugueses e Espanhóis levaram a grandiosa tarefa
de acrescentarem o rebanho de Cristo. Tal foi conseguido.
Exercida de forma ostensiva e militante, a missionação ibérica revelou-se uma
poderosa estratégia de aculturação.
Na Índia, os templos locais eram invadidos, profanados e destruídos, numa clara
manifestação de intolerância para com o hinduísmo.
Na China, nos séculos XVII e XVIII, a hostilidade europeia para com os ritos cívicos
suscitou tensões e levou à expulsão dos jesuítas. No Japão os missionários foram impiedosamente perseguidos a partir de 1614, não
obstante do papel cultural que desempenharam na divulgação da imprensa e das
línguas europeias.
Quanto às missões em território americano. As missões (chamadas de reduções na
América espanhola) eram aldeamentos onde os indígenas recebiam educação
religiosa, aprendiam a ler, a escrever, música e canto, trabalhavam nos ofícios e na
agricultura. Dizem os críticos da colonização europeia, que prolongava o estatuto de
inferioridade dos índios, isolando-os dos mundo.
Testemunhos, dão-nos conta da frustração dos indígenas e dos limites da
missionação. No Congo, o rei negro D.Afonso I lamentava, em 1517, que o rei de
Portugal quisesse desistir de receber os seus parentes que, na metrópole, aprendiam
a educação religiosa, preparando-se para o sacerdócio. Quer Portugueses quer Espanhóis, compreenderam, realmente, a vantagem de formarem, nas terras colonizadas, um clero indígena.
Da sua acção, esperava-se um maior êxito na missionação. A ordenação de sacerdotes indígenas e o ingresso nas ordens religiosas se viram progressivamente dificultados. Na Índia, o clero brâmane, era mantido numa posição subalterna. No México, ameríndios e negros jamais acediam ao sacerdócio. Subalternizados eram os mestiços e os mulatos, produto da miscigenação.
Apesar das coroas portuguesas e espanholas incentivarem as uniões interétnicas
como meios de enraizamento de presença branca na índia e na América, mal os
jovens mestiços e mulatos cresciam e se mostravam concorrentes dos brancos no
acesso a cargos e heranças, o preconceito racista ditava a discriminação.
Blogue criado por: Ruben Monteiro & Tomás Santos